A trajetória da escritora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz é marcada por uma profunda dedicação à pesquisa e à valorização da memória da população negra no Brasil. Alimentada por relatos familiares desde a infância, ela precisou enfrentar uma exaustiva rotina profissional no jornalismo e um quadro de esgotamento físico antes de se consolidar no mercado literário nacional com obras de grande repercussão.
Da exaustão ao reconhecimento literário
O ponto de virada na carreira ocorreu após o adoecimento da autora entre 2009 e 2010 devido ao ritmo intenso de trabalho. Durante o período de recuperação, ela iniciou uma minuciosa investigação sobre sua própria árvore genealógica, resultando no aclamado romance Água de Barrela, vencedor do primeiro Prêmio Literário Oliveira Silveira, da Fundação Cultural Palmares, em 2015. A partir daí, a autora ampliou seu escopo investigativo para outras produções, como O crime do Cais do Valongo e Meridiana.
Suas obras abordam recorrentemente temas como a escravidão e o racismo estrutural, costurando ficção e rigor histórico. Sobre a integração dessas duas áreas de sua carreira, a autora destacou durante entrevista: “Sim, claro. Principalmente na hora de duvidar, porque o jornalista foi feito para duvidar. Ele precisa de dados e documentos. Comecei a olhar e pensar: ‘O que não me contaram aqui? O que estão escondendo de mim?'”.
A ausência histórica no Prêmio Jabuti
Recentemente, Eliana conquistou mais um marco importante ao vencer o Prêmio Jabuti na categoria Romance com Meridiana, consolidando uma trajetória repleta de premiações, incluindo o Prêmio Guimarães Rosa da Academia Brasileira de Letras. No entanto, a autora fez questão de pontuar a tardia representatividade na premiação mais tradicional da literatura brasileira.
Para ela, o fato de ter sido a primeira mulher negra a vencer na categoria principal deveria gerar questionamentos profundos na sociedade. “Acho que deveria causar mais estranheza o fato de eu ter sido a primeira mulher negra a ganhar. Veja: foram 68 anos para uma mulher negra ganhar o prêmio de melhor romance do Brasil. Não é possível! Carolina Maria de Jesus, gente, Conceição Evaristo, a própria Ana Maria Gonçalves… Tantas escritoras e tantos romances poderiam ter subido àquele palco para ganhar esse prêmio”, declarou.
Além de sua forte atuação na literatura, Eliana Alves Cruz também deixou sua marca na televisão à frente do programa Trilha de Letras, na TV Brasil, cuja possível retomada é aguardada por leitores e entusiastas da cultura. Com sua iminente posse na Academia Carioca de Letras marcada para o dia 17 de novembro, a escritora segue inspirando novas gerações a superarem barreiras e buscarem a própria voz na literatura. (Foto: Reprodução / Redes Sociais)
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Fonte: Agência Brasil
