Três importantes locais ligados à trajetória da população negra no país foram oficialmente integrados à Rede de Lugares de História e Memória Relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A decisão contempla o Cais do Valongo, a Sociedade Protetora dos Desvalidos e a Serra da Barriga, reforçando o compromisso com a preservação histórica nacional.
Por meio de nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores destacou a importância da conquista:
“O governo brasileiro saúda a inclusão dos três lugares, que contribui para a preservação e a transmissão da memória da escravidão, o reconhecimento da resistência histórica da população negra e a educação das novas gerações”
Detalhes sobre os novos sítios reconhecidos
A candidatura foi submetida pelo Ministério das Relações Exteriores e abrange pontos fundamentais para compreender o período colonial e imperial. O Cais do Valongo, situado na zona portuária do Rio de Janeiro, guarda os vestígios arqueológicos de um dos principais pontos de desembarque de africanos escravizados nas Américas e já integrava a Lista do Patrimônio Mundial da Unesco desde 2017.
Em Salvador, na Bahia, a Sociedade Protetora dos Desvalidos representa a mais antiga instituição civil negra em atividade ininterrupta no país. Fundada em 1832 por Manoel Victor Serra e outros homens negros livres, a entidade possui um perfil de resistência que, conforme a própria organização, “ecoou nos Revoltas dos Búzios (1798) e dos Malês (1835), unindo organização, solidariedade e luta pela liberdade do nosso povo”. Já em União dos Palmares, Alagoas, a Serra da Barriga abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, simbolizando a luta secular pela liberdade e o enfrentamento ao sistema escravocrata.
Objetivos da rede internacional da Unesco
Lançada em 2024 dentro do programa Rotas dos Escravizados, a rede internacional conecta marcos históricos ao redor do globo para fomentar pesquisas, cooperação internacional e ações pedagógicas com o envolvimento das comunidades locais.
De acordo com a diretora e Representante da Unesco no Brasil, Marlova Jovchelovitch Noleto, a iniciativa visa conectar marcos históricos mundiais:
“Criada em 2024, no âmbito do Programa Rotas dos Escravizados: Resistência, Liberdade e Patrimônio, da UNESCO, a Rede busca conectar lugares de diferentes países, promovendo o intercâmbio de experiências, a cooperação internacional e o desenvolvimento de iniciativas de educação, pesquisa e valorização da memória”
A representante também pontuou que o ingresso dos três novos espaços brasileiros na listagem mundial “representa um importante reconhecimento internacional de seu valor histórico e de sua contribuição para a preservação da memória da escravidão e da resistência da população negra”.
Para Marlova Jovchelovitch Noleto, o projeto busca ir além da contemplação do passado:
“Também cria oportunidades para que os responsáveis por esses espaços compartilhem boas práticas, desenvolvam ações conjuntos e ampliem a visibilidade de suas histórias em um contexto internacional”
A gestora acrescentou ainda que a proposta “é uma maneira de transformar lugares de memória em espaços vivos de conhecimento, diálogo intercultural e promoção dos direitos humanos”.
Visão acadêmica e impacto político da chancela
Para o historiador Ivanir dos Santos, doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a chancela internacional vai além de uma simples homenagem institucional, pois “constitui uma oportunidade de questionar as narrativas tradicionais sobre a formação da sociedade brasileira e reconhecer o protagonismo da população negra na construção da história nacional”.
O especialista, que também atua como babalaô e interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro (CCIR), ressaltou que os locais traduzem diferentes frentes da vivência afro-brasileira:
“A importância desses patrimônios também está diretamente relacionada à trajetória histórica do movimento negro brasileiro, cuja atuação tem sido fundamental para denunciar o racismo, reivindicar direitos, combater o apagamento da memória afro-brasileira e exigir o reconhecimento da contribuição da população negra para a sociedade”
Por fim, o professor enfatizou que a proteção desses espaços exige políticas públicas contínuas de valorização e educação antirracista, concluindo que, “ao valorizar a memória do Quilombo dos Palmares, reafirma-se que a história do Brasil foi construída não apenas pela ação dos colonizadores e das elites econômicas, mas também pela resistência, pelo trabalho e pelas contribuições dos povos africanos e de seus descendentes”.
Fonte: Agência Brasil

